Efêmero

      

       Passado. Um verbo que agride e contraditoriamente, se faz altamente presente. Memórias de um ser que deseja cada vez mais o brilho eterno de uma mente sem lembranças. Escassez de si. Ausência de antigos e teimosamente, repulsivos, destinos.
      Sustenta os medos. Espalha fragilidade. Transborda as minhas dores e emana incompreensão. Peso. Invalida o meu significado. Ridiculariza a minha existência em seus tempos mais remotos. Hipnotiza a minha consciência. Faz-me perder a mim nas profundezas de minhas inveracidades. Traduz as  difusas percepções que ainda se propagam impetuosamente no interior da minha alma.
      Nitidez indescritível. Miopia de otimismo. Cegueira enraizada. Ensaios sobre mim. O desamparo que se perdeu no seu pior tempo. E une lineada e ingenuamente, seus feitos impensados. Subitamente inconscientes. Inegavelmente inocentes. Inteiramente, incoerentes.
       Estranhas ações que exprimem a minha mais atual imobilidade dentro da vastidão do universo.        Perto de sua imensidão, me vejo módico. Ínfimo. O mais próximo de todo o significado que constitui as intensas insignificâncias da vida.
       Ressentido. Ser de lua. Sem avistar o brilhar do sol há tempos imensuráveis. Incontáveis tentativas de senti-lo. Presenciá-lo.
    Devoção aclamada pela esperança da beleza, que se perdeu sob os olhos de quem já a teve e ilusoriamente, a contemplou.
      Não há retrocessos que não recordem da minha árdua inconstância. Evidente falha de uma vida desintegrada. Oscilações que ferem. Mantêm-me em minha impermanência. Inércia de corrosão interior que me propaga no medo. O cria. Gênese do meu fim. Dele existo. E não há paz que sobreviva a sua irracionalidade. Declaro-me desencarnada do meu florescimento.
       É noite. E nas madrugadas, eu me despedaço. São os excessos de desnorteios e indireções que me comovem apenas a sentir o vazio do desconhecimento. 
      E eu me lembro. De cada dor, espanto e desespero. 
          Tristeza que não se expira e com o tempo se torna ainda mais vívida e perto da minha questionável realidade.

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