Adormecer

Adormeci. Logo declaro a minha decorrente permanência à inércia. Na qual me encontro subitamente afogada em distantes turbulências.
Divaguei sobre a minha persistente inconsciência. E me atordoei ao rememorar feitos incorrigíveis.
Admito o meu involuntário apego ao cansaço. Não integralmente compreensível, mas suscetível ao entendimento profundo quando devidamente pensado. Me vi numa incompleta existência de um ser fragmentado.
Deprecio o ilusório deslumbre em relação à vida, ao considerar a sua caótica e exaustiva forma de ser. Ao trazer consigo uma visão confundida e desesperançosa. A qual acidenta a alma e nos transforma numa grave ferida sem cicatrização.
Desando de um rumo sem espaço para recomeços. Os regressos são outros. Mais a frente de qualquer sensata previsão.
Releitura imperfeita de aspirações inalcançáveis. É o que a realidade se tornou.
Sob o céu que lhe enxergo e admiro, mal consigo ser verdadeiramente vista. Já que me mantenho perfeitamente escondida na minha discreta inconsistência. Do mar que sou feita, inundo. Transbordando inconstância. E em abundância, sonhos eternamente perdidos na imensidão das impossibilidades do mundo.
Do jardim que cultivo, não lhe trago flores. Pois minhas verdades foram levadas distante o suficiente para eu precisar me refazer nas incertezas da qual sou feita.
Me desponho portanto, a ser um mero desmanche no tempo. Um voo em queda. Em direção à minha própria submersão. Desmanche esse que por fim se afoga ao guiar-se pelas correntezas de suas cegas angústias.
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